Friday, August 30, 2019

PT -- CAPÍTULO SEIS - FULL SPECTRUM DOMINANCE

A História Curiosa da Guerra das Estrelas 
O anúncio da Casa Branca, em Outubro de 2006, sobre uma nova política espacial nacional e as subsequentes declarações do Departamento de Estado, levantam sérias preocupações sobre se já começou um novo impulso para militarizar o Espaço.
- Richard C. Cook (1)
As Origens da Defesa Anti Míssil dos EUA
O programa dos EUA para construir uma rede global de “defesa” contra possíveis ataques de mísseis balísticos, iniciou-se em 23 de Março de 1983, quando o então Presidente Ronald Reagan propôs o programa popularmente conhecido como “Guerra das Estrelas”, formalmente designado como Iniciativa de Defesa Estratégica.
Em 1994, num jantar privado com este autor em Moscovo, o antigo chefe de estudos económicos do Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais da União Soviética, IMEMO, declarou que foram as enormes solicitações financeiras exigidas pela Rússia para acompanhar o ritmo do esforço de vários biliões de dólares, da “Guerra das Estrelas” que, finalmente, levou ao colapso económico do Pacto de Varsóvia e, ironicamente, conduziu à reunificação alemã, em 1990.(2)
Esta situação combinada com a perda de uma guerra no Afeganistão e o colapso das receitas petrolíferas depois dos EUA inundarem os mercados mundiais com petróleo saudita, em 1986, a economia militar da URSS não conseguiu acompanhar o ritmo, correndo o risco de uma agitação civil em massa nos países do Pacto de Varsóvia.
A NASA e o Sigilo Militar
O ano de 1986 testemunhou o maior desastre que atingiu o programa espacial da NASA, nos Estados Unidos, desde que foi lançado. A NASA foi criada como um projecto civil pelo Presidente Dwight Eisenhower. Autorizada em 1958, pela Lei Nacional da Aeronáutica e do Espaço, a NASA foi uma tentativa de mostrar ao mundo que a ciência americana poderia superar o triunfo do Sputnik, na Rússia. O Presidente decidiu deliberadamente manter as forças armadas fora da NASA, a fim de usar o programa como um grande impulsionador da ciência civil para a economia em geral. A lei declarava: “Por este meio, o Congresso declara que a política dos Estados Unidos é que as actividades no Espaço sejam dedicadas a propósitos pacíficos, para benefício da Humanidade” (3).
Então, em 28 de Janeiro de 1986, o vaivem Espacial Challenger explodiu durante o voo, matando todas as sete pessoas a bordo - seis astronautas e um professor. O programa do vaivém da NASA tinha começado na década de 1970 para criar naves reutilizáveis para o transporte de carga no espaço. As naves espaciais  anteriores só podiam ser usadas uma vez e depois tinham que ser descartadas. O primeiro vaivem espacial, o Columbia, foi lançado em 1981. Um ano depois, o Challenger foi lançado como o segundo vivem espacial da frota dos EUA. Seguiram-se o Discovery, em 1983, e o Atlantis, em 1985. O Challenger tinha voado nove missões bem-sucedidas antes do desastre fatídico, em 1986.(4)
As razões da explosão eram complexas. O Dr. Richard C. Cook, analista do governo federal, na NASA, testemunhou no Congresso, na época, sobre os anéis de vedação (O-rings) defeituosos que foram a causa inicial da explosão. Depois de se aposentar do serviço público, Cook explicou a verdadeira causa da tragédia do Challenger:
A mistura de prioridades civis e militares pela NASA conduziu ao desastre da Challenger, em 31 de Janeiro de 1986, um incidente que mostrou como os motivos confusos e a falta de franqueza nos programas públicos podem resultar em tragédia.(5)
Cook, cuja posição na NASA era de Auditor Financeiro do Gabinete de Corregedoria da NASA, incluindo os propulsores de foguetes sólidos do vaivem espacial, revelou os factores internos e externos:
Em 9 de Fevereiro de 1986, quase duas semanas após a perda do Challenger, o New York Times publicou uma série de documentos explosivos, incluindo um memorando que escrevi no mês de Julho anterior - e que partilhei com o repórter de Ciência do Times, Phil Boffey - alertando para uma possível catástrofe devido a uma junta defeituosa. Assim começou uma cascata de divulgações que incluiu o relato de como os engenheiros contratados protestaram contra o lançamento em tempo frio e o conhecimento prévio da NASA dos impulsionadores de selagem deficiente, do foguetão.
Mas foi só depois da comissão presidencial que investigou o desastre, concluir o seu trabalho que eu descobri por que razão a NASA continuava com as missões de voo do vaivem espacial depois do pior dano ocorrido até hoje, na selagem durante um vôo ocorrido em tempo frio, em Janeiro de 1985, precisamente um ano antes do Challenger explodir. Foi porque um critério de lançamento para uma junta de temperatura poderia interferir nos vôos militares que a NASA planeava lançar para a Força Aérea, na base da Força Aérea de Vandenberg, na Califórnia, onde o clima costumava ser mais frio do que na Flórida. Muitos desses vôos foram para realizar experiências do programa 'Star Wars' em preparação para uma possível instalação futura, de armas nucleares da 'terceira geração', como o laser de raios-x. (6)
A revelação feita por Cook sobre a militarização da NASA desde meados da década de 1980, em ligação à 'Guerra das Estrelas' de Reagan, era suficientemente sinistra. Isso significava que os militares dos EUA violavam secretamente os compromissos do Tratado e já tinham iniciado uma corrida armamentista no Espaço durante os anos 80. Não havia outro alvo imediato ou óbvio, a não ser o arsenal nuclear da União Soviética.
No entanto, a tragédia do Challenger resultou na suspensão de mais testes de armas no Espaço até 2006. Então, numa declaração pouco notada, em Outubro de 2006, a Administração Bush-Cheney-Rumsfeld mudou tudo isto e a militarização do Espaço, que Putin tinha avisado no seu discurso de Fevereiro de 2007, em Munique, desenvolveu um novo componente alarmante.
Como Richard Cook especificou:
Até hoje, o principal beneficiário do programa Lua-Marte é a Lockheed Martin, à qual a NASA concedeu um contrato principal com um valor potencial declarado de 8,15 biliões de dólares. Já considerado o maior contratado de defesa do mundo, as acções da Lockheed Martin renderam uma riqueza instantânea, subindo mais de sete por cento(7%) nas cinco semanas após o anúncio da NASA, em Agosto de 2006.
A NASA não está a pagar ao gigantesco complexo industrial militar 8,15 biliões  de dólares para ter pessoas a pular e a jogar bolas de golfe na Lua. O objectivo do programa Lua-Marte é o domínio dos EUA, conforme sugerido pelas declarações do Administrador da NASA, Michael Griffin de que 'o meu idioma' - isto é, o inglês - e não o de 'outra cultura, mais ousada ou mais persistente, será transmitido ao longo de gerações às colónias lunares do futuro’.
O primeiro passo será uma colónia no pólo sul da Lua, descrito pela NASA, num anúncio, em Dezembro de 2006. De acordo com Bruce Gagnon, da Rede Global Contra Armas e Energia Nuclear no Espaço, 'No final, o plano da NASA de estabelecer bases permanentes na Lua ajudará os militares a controlar e dominar o acesso, dentro e fora do planeta Terra e determinar quem extrairá recursos valiosos da Lua, nos próximos anos.’
Os planos da NASA parecem estar um passo atrás à perspectiva da Guerra Fria, o que a Estação Espacial Internacional (ISS) deveria transcender e é contrária à sua missão original. A autorização da NASA, de 1958 afirmava que . . . “as actividades no Espaço devem ser dedicadas a fins pacíficos, em benefício da Humanidade.” Promover uma corrida do século XXI aos postos avançados do sistema solar, que Griffin comparou à disputa armada das colónias pelas nações europeias, não pareceria favorecer as metas visionárias, para as quais a NASA foi criada.(7)
Numa comunicação privada com este autor, Cook ainda foi mais alarmante:
Creio que o ‘establishment’ dos EUA está, de facto, a planear ‘first strike’ nuclear à Rússia. No entanto, existe uma profunda divisão entre as forças armadas dos EUA, na medida em que o Exército, a Marinha e alguns elementos da Força Aérea ainda vêem o seu trabalho como uma força defensiva para garantir a segurança dos Estados Unidos. O elemento militar que visa a conquista do mundo, mesmo através de um ‘first strike’ [nuclear], inclui os escalões mais altos da Força Aérea, da Agência de Defesa Anti-Mísseis e da parte da liderança civil do Pentágono mais alinhada às poderosas forças financeiras, que são os verdadeiros governantes do país. (8)
Foi uma alegação bastante pesada. As evidências descobertas, infelizmente, mostraram que não era exagero.

Rumsfeld Apoia a Defesa Anti-Mísseis
Em Julho de 1998, numa época em que as ameaças de mísseis balísticos nucleares aos Estados Unidos pareciam remotas, Donald Rumsfeld entregou ao Presidente Bill Clinton, um relatório da Comissão para Avaliar a Ameaça de Mísseis Balísticos aos Estados Unidos - da “Comissão Rumsfeld”.
O Relatório da Comissão Rumsfeld descreveu aquilo que considerava o perigo estratégico para os Estados Unidos:
Os esforços concertados de várias nações hostis, para adquirir, abertamente ou por casualidade, mísseis balísticos com cargas biológicas ou nucleares, representam uma ameaça crescente para os Estados Unidos, para as suas forças destacadas e para os seus amigos e aliados. Estas ameaças mais recentes e em desenvolvimento na Coreia do Norte, Irão e Iraque são adicionais às ainda representadas pelos arsenais de mísseis balísticos da Rússia e da China, nações com as quais não estamos em conflito agora, mas que permanecem em transições incertas. As capacidades mais recentes dos países equipados com mísseis balísticos não corresponderão às dos sistemas americanos em termos de precisão ou segurança. No entanto, seriam capazes de infligir grande destruição aos EUA dentro de cerca de cinco anos após a decisão de adquirir essa capacidade (10 anos no caso do Iraque). Durante vários desses anos, os EUA podem não ser conhecedores de que essa decisão foi tomada por esses países.
A ameaça para os EUA colocada por essas capacidades emergentes é mais ampla, mais madura e evolui mais rapidamente do que foi relatado nas estimativas e relatórios da Comunidade de Inteligência/Serviços Secretos.(9)
O que era notável era que isto aconteceu em 1998 - três anos antes dos acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, e Donald Rumsfeld e outros conselheiros experientes dos EUA já tinham como alvo o Iraque, o Irão e a Coreia do Norte, o trio mais tarde nomeado pelo Presidente Bush como o 'Eixo do Mal.'
Também notável era o facto de que Rumsfeld ter sido adicionado à comissão de nove membros, por dois dos guerreiros neoconservadores mais vocais de Washington: Paul Wolfowitz, que se tornaria o Vice Secretário de Defesa de Rumsfeld e o principal arquitecto da guerra dos EUA no Iraque; e o  antigo chefe da CIA, James Woolsey, que chefiou a Freedom House, a ONG obscura ligada à comunidade de inteligência/serviços secretos dos EUA e activa nas 'Revoluções Coloridas' da Geórgia até à Ucrânia.
A escolha de Rumsfeld para Director de Equipa da Comissão Rumsfeld foi o Dr. Stephen Cambone, um falcão neoconservador que redigiria secções importantes do Projecto para um Novo Século Americano, de Setembro de 2000 - Reconstruindo as defesas da América. O relatório da PNAC, além de pedir a intervenção dos EUA para a mudança de regime no Iraque um ano antes dos ataques de Setembro de 2001, também pedia, que os EUA desenvolvessem tecnologias de guerra biológica étnica e racial. Muitos dos autores do relatório - incluindo Dick Cheney, Wolfowitz, Cambone e Rumsfeld – continuaram implementar as suas recomendações dentro da Administração Bush, após o 9/11 (11 de Setembro de 2001).
Em 8 de Maio de 2003, Rumsfeld nomeou Cambone, Subsecretário de Defesa para a Inteligência, uma nova posição que o Secretário de Defesa Adjunto, Paul Wolfowitz, descreveu assim: “O novo departamento está encarregado de todas as funções de supervisão e orientação política e de inteligência relacionadas com a Inteligência/Serviços “ Secretos.” (10)
Na prática, significava  que Cambone controlava a Agência de Defesa da Inteligência/Defense Intelligence Agency, a Agência de Imagem e Mapas Nacionais/National Imagery and Mapping Agency, a Organização Nacional de Reconhecimento/ National/Reconnaissance Organization, a Agência de Segurança Nacional/National Security Agency, o Serviço de Segurança da Defesa/Defense Security Service e o Campo de Actividade de Contra Inteligência do Pentágono/Pentagon's Counter-Intelligence Field Activity. . Cambone reunia-se com os chefes dessas agências, bem como com altos funcionários da CIA e do Conselho de Segurança Nacional, duas vezes por semana, para lhes dar as suas ordens de marcha. (11)
No auge da sua carreira no Pentágono, em 2005, segundo fontes bem informadas do Senado, Cambone tinha poder e influência mais efectivos sobre o formato das estimativas dos  serviços secretos/inteligência americanos que chegavam ao Presidente do que George Tenet ou Condoleezza Rice, a então Conselheira da Segurança Nacional do Presidente.(12)
A ascensão de Cambone ao poder tinha sido tranquila, quase desapercebida até o escândalo de Abu Ghraib o forçar, brevemente, a ficar em destaque. Então, o seu papel no avanço da inteligência fraudulenta usada para convencer o Congresso a sancionar a guerra no Iraque - assim como o seu papel na alegada autorização de tortura sistemática de prisioneiros em Guantánamo, Cuba e na prisão de Abu Ghraib no Iraque - colocam Cambone desconfortavelmente em destaque. A sua purga de quaisquer oponentes militares da sua agenda agressiva revelou mais a público, qual era a verdadeira intenção da defesa anti-mísseis de Rumsfeld. Era agressiva e ofensiva em extremo.(13)
Relatório Estratégico do Pentágono para a Europa e para a NATO
Em Dezembro de 2000, pouco antes de Donald Rumsfeld se tornar Secretário de Defesa, o Pentágono divulgou um Relatório de Estratégia para a Europa e para a NATO. O relatório continha uma secção sobre 'Defesa contra Mísseis de Teatro'/(Theater Missile Defense). Como documento oficial de política do Departamento de Defesa dos EUA, merecia um estudo cuidadoso. Declarava:
Defesa contra Mísseis de Teatro [de operações] : como parte de esforços mais amplos para aumentar a segurança dos Estados Unidos, das forças aliadas e da coligação contra ataques de mísseis balísticos e para complementar a nossa estratégia de contra-proliferação, os Estados Unidos estão a procurar oportunidades para a cooperação de TMD (Defesa  de teatro) com Parceiros da NATO.Os objectivos dos esforços cooperativos dos Estados Unidos são fornecer uma defesa eficaz contra mísseis para as forças da coligação ... contra mísseis de curto a médio alcance. No seu Conceito Estratégico, a NATO reafirmou o risco representado pela proliferação de armas e mísseis balísticos NBC (Nuclear, Biológicos, Químicos) e a Aliança chegou a um acordo geral sobre a estrutura para lidar com essas ameaças. Como parte do DCI da NATO, os Aliados concordaram em desenvolver forças da Aliança que possam responder com defesas activas e passivas a ataques NBC. Os aliados concordaram ainda que a DTM é necessária para as forças destacadas da NATO.
 …… A Aliança está a realizar uma análise de viabilidade para uma arquitectura de defesa em camadas. À medida que a ameaça de mísseis balísticos para a Europa evoluir na direcção de longo alcance, a Aliança precisará considerar medidas adicionais de defesa incorporando DTM de nível superior e/ou uma defesa contra mísseis de longo alcance.(14)
O documento do Pentágono voltou-se para a defesa anti-mísseis Continental dos EUA e declarou:
Defesa Nacional contra Mísseis: Irão, Iraque, Líbia e Coreia do Norte não precisam de mísseis de longo alcance para intimidar os vizinhos; já têm mísseis de curto alcance para fazê-lo. Ao contrário, querem mísseis de longo alcance para coagir e ameaçar países mais distantes da América do Norte e da Europa. Presumivelmente, acreditam que mesmo um pequeno número de mísseis, contra os quais não temos defesa, seria suficiente para inibir as acções dos EUA de apoio aos nossos aliados ou parceiros de coligação, numa crise.
Com base na nossa avaliação destas tendências, os Estados Unidos concluíram que devemos combater essa ameaça antes que um desses Estados tente ameaçar os Estados Unidos para proteger os seus interesses, incluindo compromissos com os nossos aliados na Europa e noutros lugares. Assim, os Estados Unidos estão a desenvolver um sistema NMD (National Missile Defense) que protegeria todos os 50 estados de um ataque limitado de algumas dezenas de ogivas. [Sic]
... Embora Moscovo argumente o contrário, o sistema NMD limitado que os Estados Unidos estão a desenvolver não ameaçaria a estratégia dissuasiva russa, o que poderia sobrecarregar a nossa defesa mesmo que as forças estratégicas russas fossem muito inferiores aos níveis previstos nos acordos estratégicos de redução de armas entre EUA e Rússia. ...
Depois, o documento político do Pentágono de 2000 adicionou uma torção peculiar da lógica:
O NMD que imaginamos reforçaria a credibilidade dos compromissos de segurança dos EUA e a credibilidade da NATO como um todo.
A Europa não estaria mais segura se os Estados Unidos estivessem menos seguros contra um ataque de míssil por um Estado de relevância. Uma América menos vulnerável a ataques de mísseis balísticos tem mais probabilidade de defender a Europa e os interesses comuns de segurança ocidentais do que uma América mais vulnerável.
Em Setembro de 2000, o Presidente Clinton anunciou que, embora a NMD fosse suficientemente promissora e acessível para justificar o desenvolvimento e teste contínuos, não havia informações suficientes sobre a eficácia técnica e operacional de todo o sistema NMD para avançar com a instalação.  Ao tomar essa decisão, ele considerou a ameaça, o custo, a viabilidade técnica e o impacto na nossa segurança nacional para prosseguir com a NMD. A decisão do Presidente dará flexibilidade a uma nova administração e preservará a opção de instalar um sistema nacional de defesa anti-mísseis no período de 2006 a 2007.(15)
A Administração Clinton adoptou as recomendações principais do relatório Rumsfeld-Cambone de 1998, sobre defesa de mísseis balísticos.
Em Julho de 2000, os Chefes de Estado da Rússia e da China emitiram uma declaração comum sobre os planos dos EUA de construir a sua defesa anti-mísseis. A sua declaração menciona, em parte,
... [O] programa dos EUA para estabelecer a defesa nacional contra mísseis, um sistema proibido pelo Tratado ABM, despertou sérias preocupações. A China e a Rússia sustentam que esse programa visa, essencialmente, a busca da superioridade militar e da segurança unilateral. Esse programa, se for efectuado, dará origem às mais graves consequências negativas para a segurança não apenas da Rússia, da China e de outros países, mas também dos próprios Estados Unidos e da estabilidade estratégica global. Neste contexto, a China e a Rússia registaram sua oposição inequívoca ao programa acima mencionado.(16)
Em Maio de 2001, numa de suas primeiras declarações políticas importantes como Presidente, George W. Bush declarou:
A Rússia de hoje não é nossa inimiga, mas um país em transição com a oportunidade de emergir como uma grande nação, democrática, em paz consigo mesma e com os seus vizinhos.
A Cortina de Ferro já não existe. A Polónia, a Hungria e a República Checa são nações livres e agora são nossas aliadas na NATO, juntamente com a Alemanha reunificada. No entanto, este mundo ainda é perigoso; um mundo menos correcto, menos previsível.
Mais nações têm armas nucleares e ainda mais têm aspirações nucleares. Muitas têm armas químicas e biológicas. Algumas já desenvolveram uma tecnologia de mísseis balísticos que lhes permitiria lançar armas de destruição em massa a longas distâncias e a velocidades incríveis, e vários destes países estão a espalhar estas tecnologias pelo mundo.
Mais preocupante, acima de tudo, é que a lista destes países inclui alguns dos Estados menos responsáveis do mundo. Ao contrário da Guerra Fria, a ameaça mais urgente de hoje não decorre de milhares de mísseis balísticos nas mãos soviéticas, mas de um pequeno número de mísseis nas mãos destes Estados - Estados para quem o terror e a chantagem são um modo de vida.
Procuram armas de destruição em massa para intimidar os vizinhos e impedir que os Estados Unidos e outras nações responsáveis ajudem aliados e amigos em partes estratégicas do mundo. Quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait em 1990, o mundo uniu forças para controlá-lo. Mas a comunidade internacional teria enfrentado uma situação muito diferente se Hussein pudesse ameaçar com armas nucleares.
Como Saddam Hussein, alguns dos tiranos de hoje são dominados por um ódio implacável contra os Estados Unidos da América. Eles odeiam os nossos amigos, os nossos valores, a democracia, a liberdade e liberdade individual. Muitos importam-se pouco com a vida de seu próprio povo. Neste mundo, a dissuasão da Guerra Fria já não é  suficiente para manter a paz, proteger os nossos cidadãos, aliados e amigos.(17)
Os comentários de Bush, proferidos seis meses antes de 11 de Setembro de 2001, eram significativos em muitos aspectos, principalmente na revelação da falta completa de sinceridade de Washington quanto às suas razões para continuar agressivamente a Defesa contra Mísseis Balísticos.
O Presidente insistia que o objectivo dos seus compromissos avolumados para construir um escudo anti-mísseis dos EUA não era destinado à Rússia, mas sim aos 'terroristas' ou pequenos Estados 'desonestos', tais como Coreia do Norte, Irão ou Iraque. Às vezes, a pequena nação da Síria era adicionada à lista do Eixo, embora não existissem relatos de nenhum desses planos de mísseis sírios. De facto, como os especialistas militares de Moscovo, até Pequim e até Berlim foram rápidos a apontar, nenhuns 'terroristas' ou pequeno Estado desonesto tinha essa capacidade de lançar mísseis nucleares.
Os pormenores dos relatórios oficiais de política militar dos EUA demonstraram, sem sombra de dúvida, que tinha sido a política deliberada e inflexível de Washington desde o colapso da União Soviética, de maneira sistemática e implacável - nas administrações dos três Presidentes dos EUA – esforçar-se para obter a supremacia nuclear (destruição garantida unilateral) e a capacidade do domínio militar global absoluto, aquilo que o Pentágono denominou como  Full Spectrum Dominance/Domínio do Espectro Total.
Por que Razão, a Defesa Anti-mísseis Agora?
Tornou-se cada vez mais claro, pelo menos em Moscovo e Pequim, que Washington tinha uma grande estratégia muito mais ameaçadora por trás de seus movimentos militares unilaterais, aparentemente irracionais e arbitrários. O governo dos EUA tentou, incessantemente, embora bastante mal, cultivar a impressão de que o seu interesse pela defesa anti-mísseis havia sido motivado pela nova ameaça de terrorismo após Setembro de 2001.
No entanto, para o Pentágono e para o ‘establishment’ político dos EUA, independentemente do partido político, a Guerra Fria com a Rússia, realmente nunca terminou. Ela continuou de maneira disfarçada. Foi o que aconteceu com os Presidentes G.H.W. Bush, William Clinton e George W. Bush. Os estrategas do Pentágono não receavam um ataque nuclear ao território dos Estados Unidos, efectuado pelo Irão. A frota de bombardeiros da Marinha e da Força Aérea dos EUA estava plenamente preparada para bombardear o Irão, mesmo com armas nucleares, 'de regresso à idade da pedra', por meras suspeitas de que o Irão estivesse a tentar desenvolver tecnologia independente de armas nucleares. Estados como o Irão não tinham capacidade de atacar a América - e muito menos torná-la indefesa - sem arriscar sua própria aniquilação nuclear total. O Irão estava bem ciente desse facto, podemos ter a certeza.
Os projectos de 'defesa anti-mísseis' surgiram na década de 1980, quando Ronald Reagan propôs o desenvolvimento de sistemas de satélites no espaço, bem como estações de escuta de bases de radar e mísseis interceptores ao redor do mundo, todos projectados para controlar e abater mísseis nucleares antes de atingirem os alvos pretendidos.
Foi denominado “Guerra das Estrelas” pelos seus críticos, mas o Pentágono gastou oficialmente mais de 130 biliões de dólares no desenvolvimento do sistema, desde 1983. George W. Bush, a partir de 2002, aumentou esse montante significativamente para 11 biliões de dólares por ano. Foi o dobro do valor concedido durante os anos Clinton. E foram orçamentados 53 biliões de dólares para os cinco anos seguintes, excluindo os biliões não revelados que estavam a  ser desviados para a defesa anti-mísseis através de orçamentos secretos e inexplicáveis, da 'caixa preta' do Pentágono.
O alvo da Guerra das Estrelas, do Pentágono, não era o Irão, nem mesmo a Coreia do Norte. Era a Rússia - a única potência nuclear à face da Terra, que atrapalhava o domínio militar total do planeta pelos EUA. Essa foi a mensagem clara que o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, transmitiu em Munique, a uma imprensa mundial chocada, em Fevereiro de 2007. (18)
Notas de Rodapé:
1 Richard C. Cook, “Militarization and The Moon-Mars Program: Another Wrong Turn in Space?,” Global Research, January 22, 2007. https://www.globalresearch.ca/militarization-and-the-moon-mars-program-another-wrong-turn-in-space/4554
2 Conversation in Moscow in May 1994 between author and the Director of Economic Research of the Russian Institute for International Strategic Studies (IISS).
3 The National Aeronautics and Space Act of 1958 (Space Act) (P.L. 85-568, 72 Stat. 426) https://history.nasa.gov/spaceact-legishistory.pdf
5 Richard C. Cook, Op. Cit.
6 Ibid. 7 Ibid.
8 Richard C. Cook, in private correspondence with the author, March 24, 2007. ~
9 Donald Rumsfeld, et al, Report of the Commission to Assess the Ballistic Missile Threat to the United States, July 15, 1998. Washington D.C. https://fas.org/irp/threat/bm-threat.htm
10 Bill Gertz, “Cambone’s Empire,” Inside the Ring, May 23, 2003 (https://gertzfile.com/gertzfile/ring052303.html).
11 Ibid.
 12 Jeffrey St. Clair, “The Secret World of Stephen Cambone, Rumsfeld's Enforcer,” Counterpunch, February 7, 2006 (https://corpwatch.org/article/us-secret-world-stephen-cambone-rumsfelds-enforcer).
13 Ibid.
14 United States Department of Defense, Strategy Report for Europe and NATO Excerpt on Ballistic Missile Defenses, December 1, 2000. Washington, D.C. https://www.bits.de/NRANEU/BMD/positions.htm
15 Ibid.
16 Joint Statement by the Presidents of the People's Republic of China and the Russian Federation on Anti-Missile Defense, July 18, 2000. http://www.nuclearfiles.org/menu/key-issues/missile-defense/history/joint-statement-china-russia.htm
17 George W. Bush, Speech on Missile Defense, May 1, 2001. https://fas.org/nuke/control/abmt/news/010501bush.html
18 Vladimir Putin, Speech of Russian President Vladimir Putin at the 4, Munich Security Conference, Munich, October 2, 2007.http://en.kremlin.ru/events/president/transcripts/24034


A seguir:
CAPÍTULO SETE

A Obsessão Nuclear de Washington


Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos

Email: luisavasconcellos2012@gmail.com

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